Rosário se tornou conhecida mundialmente como a cidade natal
de Messi, o craque que recentemente foi eleito novamente o melhor jogador de
futebol do mundo. Entretanto, também vem ganhando fama internacional por ser a
mais violenta cidade da Argentina – e um episódio envolvendo justamente Messi
escancarou isso.
Na semana passada, o supermercado da família da esposa do craque, Antonela Rocuzzo, localizado em Rosário, foi alvo de tiros, em incidente que não deixou feridos. Os autores do ataque deixaram uma mensagem dirigida ao jogador do Paris Saint-Germain e ao prefeito da cidade, Pablo Javkin.
“Messi, estamos te esperando. Javkin também é um alvo, não
vai proteger você”, escreveram os criminosos em um papelão que foi encontrado
diante do estabelecimento.
O atentado ao supermercado foi apenas uma amostra da
violência que assola Rosário: em 2022, a cidade teve mais de 280 homicídios,
índice que ultrapassou a taxa de 20 assassinatos por 100 mil habitantes. A Organização
Mundial da Saúde (OMS) considera que a violência é epidêmica numa região quando
ocorrem mais de dez homicídios para cada 100 mil habitantes.
Para se ter uma ideia, a capital argentina, Buenos Aires, que
tem mais de 3,1 milhões de moradores (Rosário tem cerca de 1,3 milhão),
registrou no ano passado 88 homicídios, o que representou uma taxa de 2,86.
O Ministério da Segurança ainda não compilou os dados de
todo o país em 2022, mas em 2021 a taxa de homicídios em toda a Argentina foi
de 4,6 a cada 100 mil habitantes.
Eugenio Burzaco, ex-secretário de Segurança Nacional,
afirmou em entrevista ao podcast do site Infobae que a violência ocorre em
Rosário devido à ação de grandes narcotraficantes: a região é um ponto de
convergência de quase todas as rotas relevantes que, a partir do norte
argentino, trazem drogas dos principais países produtores de cocaína e maconha.
Outro fator é a Hidrovia Paraguai-Paraná, que, segundo
Burzaco, “se transformou, de uma verdadeira via comercial para Paraguai,
Bolívia, sul do Brasil, Argentina e Uruguai, em um viaduto para o tráfico de
cocaína para a Europa”.
“A situação de tão acentuada deterioração que assola uma das
principais cidades do país se deve ao avanço das máfias do tráfico que hoje
controlam o território e a um misto de cooptação e deterioração das forças de
segurança que entregaram, sob a passividade de seus administradores políticos,
o monopólio do uso legítimo da força”, acrescentou o ex-secretário de Segurança
Nacional.
Reforço tardio
Após admitir a crise de segurança em Rosário, o presidente
Alberto Fernández autorizou o reforço das forças federais presentes em Rosário
até chegar a 1,4 mil agentes e o envio do Comando de Engenheiros, cuja
principal tarefa será acelerar as obras de urbanização em bairros periféricos.
Para os políticos locais e analistas, entretanto, a ajuda
demorou demais para chegar. “Nos últimos dez anos, houve 2,5 mil assassinatos
em Rosário, mas nada comoveu tanto o poder político quanto um tiroteio quase
rotineiro na cidade, contra a fachada de um supermercado fechado, sem mortos ou
feridos”, escreveu Héctor Gambini, colunista do Clarín.
No artigo com o irônico título “Obrigado, Messi: o governo
descobriu Rosário”, Gambini destacou que, em um ano eleitoral, Fernández
finalmente anunciou medidas para reforçar a segurança na cidade “após três anos
deixando-a abandonada à própria sorte”.
Em entrevista à rádio Urbana Play, Javkin, o prefeito de
Rosário, agradeceu pelo envio de mais agentes federais, mas reclamou da demora
e cobrou melhoria da segurança também nas áreas de fronteira argentinas.
“Não acredito que as forças federais não estejam no nó
logístico mais importante da Argentina e, portanto, o lugar onde mais opera o
narcotráfico. Somos parte da Argentina, as forças são federais. Têm de estar
nas fronteiras, têm de estar nos portos importantes e têm de estar nos nós
logísticos de recepção terrestre [de mercadorias]”, justificou.
“Se há drogas em Rosário, é porque atravessam a fronteira. Se há armas em Rosário, é porque circulam armas ilegais que chegam aqui”, apontou Javkin. Resta saber se essa inédita atenção dedicada à terceira maior cidade argentina durará até as eleições de outubro e se permanecerá depois disso. (Com Agência EFE)